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"Significados da Existência" ©2016 Eduardo Galvani

 

SIGNIFICADOS DA EXISTÊNCIA
Linguagem, Cultura e Transformação Social
por Eduardo Galvani
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Meanings of the Existence - Language, Culture and Social Development
Abstract: This essay represents a theoretical effort to increase the understanding about how relations between culture and language can influence the social development.


Keywords: Cultural Anthropology, Symbolism, Interpretivism.


Algumas das principais questões filosófico-científicas da atualidade derivam do fato de que as ciências, de um modo geral — e não apenas as ciências humanas — baseiam-se em observações empíricas da realidade a partir de pressupostos e conhecimentos construídos com base em linguagens humanas pretendidas comuns e universais. Para as ciências que buscam reconstituir a história da evolução humana, entretanto, talvez uma das questões mais polêmicas e conhecidas seja a incapacidade de encontrar exemplares vivos do “elo” que afirmam mais aproximar humanos de primatas. Esta questão, a propósito, é uma das razões pelas quais alguns indivíduos duvidam na íntegra das teorias evolutivas.

 

Assim, ao adotar uma perspectiva evolutiva no sentido de “transformação” (longe de pretender atestar aqui a validade de teorias gerais sobre a evolução humana), através deste ensaio, proponho uma breve análise da interdependência entre aspectos culturais e a dinâmica social de algumas sociedades indígenas no intuito de identificar possíveis "elos", estágios “evolutivos” ou “transformativos” da linguagem e da cultura humana que podem demarcar uma possível condição de transição entre sociedades com escrita e sem escrita, além de ampliar a compreensão acerca da possibilidade de diferentes grupos humanos conceberem e atribuírem significados distintos à própria existência enquanto reflexo da influência recíproca entre os modos de desenvolvimento cultural e de organização e transformação social.

As principais referências teóricas desta análise são os textos “Escrita na Pedra, Escrita no Papel”, do antropólogo inglês Stephen Hugh-Jones (capítulo VII da coletânea “Rotas de Criação e Transformação”, organizada por Geraldo Andrello) e “Desenhos de Escrita” (capítulo I da primeira parte do livro “A Queda do Céu”), do xamã Yanomami Davi Kopenawa e do etnógrafo francês Bruce Albert. A escolha destas referências ocorre em virtude do seu caráter etnográfico, as quais fornecem conteúdos empíricos de grande valor analítico e que, no meu entendimento, podem contribuir de fato para ampliar bastante o conhecimento sobre o assunto.



SISTEMAS MNEMÔNICOS 
E TRANSMISSÃO CULTURAL

Em “Escrita na Pedra, Escrita no Papel”, Hugh-Jones apresenta uma interpretação bastante interessante sobre os potenciais simbólicos e as variadas possibilidades de influência social de alguns tipos peculiares de linguagem e modos de transmissão cultural que encontrou ao observar e comparar diferentes elementos dos complexos sistemas mnemônicos das sociedades Tucano e Arawak, na região do Alto do Rio Negro, situada no extremo norte do Brasil.

A partir de suas incursões etnográficas, Hugh-Jones sugere que uma série de elementos culturais que constituem os sistemas mnemônicos destas sociedades (Petroglifos, Quipos, Cordões, Cestarias, Pães, Fachadas de Ocas e etc.) são portadores de gravuras, desenhos e registros simbólicos com formas a princípio misteriosas e enigmáticas, mas que quando consideradas em seu próprio contexto sócio-cultural, e ao serem comparadas entre si e com outras formas de expressão e de manifestação cultural destas mesmas sociedades (Cantos Rituais e Narrativas Mitológicas Orais), revelam significados em comum e evidenciam assim a existência do que pode ser considerado um sistema de linguagens e expressões culturais, as quais, traduzidas de forma adequada por indivíduos conhecedores daquela cultura e simbologia, permitem a identificação de mensagens que fazem referência a significados socialmente elaborados e reconhecíveis. Portanto, se alguns dos principais pressupostos do estruturalismo linguístico afirmam que a “verdadeira escrita” caracteriza-se por uma ligação sistemática entre som e significado, este sistema de linguagens e expressões culturais identificado por Hugh-Jones pode representar uma variação ancestral dos sistemas contemporâneos de escrita segmental por alfabetos.

Entretanto, além da identificação de semelhanças entre simbolismos de diferentes elementos culturais constitutivos daqueles sistemas mnemônicos, Hugh-Jones descreve também a similaridade estrutural das principais mitologias de origem de ambas as sociedades observadas, nas quais podem ser identificados 3 ciclos temporais fundamentais — relativos às suas origens primordiais, ancestralidades divinas e eventos que sucederam a criação, a divisão e a dispersão dos seres humanos —, fato que evidencia o compartilhamento de uma tradição narrativa, além de caracterizar a possível existência de intercâmbio cultural entre estas sociedades e sugerir o potencial cosmológico, simbólico e informativo das expressões culturais ali encontradas, conforme citação abaixo onde Hugh-Jones refere-se às peculiaridades do sistema de memória que encontrou nas sociedades Tucano e Arawak:


"Os sistemas de memória estão baseados em princípios psicológicos gerais de ordem e saliência: relações ordenadas entre sequências de linguagem ritual e elementos gráficos correspondentes dão ao sistema seu poder lógico, ao passo que a saliência desses elementos gráficos confere ao sistema seus poderes expressivos. Para que tais sistemas operem os elementos precisam ser memoráveis: algo impressionantes ou surpreendentes, eles devem capturar o olho ou engajar a imaginação. O que lhes dá qualidade? Severi sugere que é a qualidade ambígua, ou quimérica, dos elementos iconográficos nos sistemas de memória que faz deles ao mesmo tempo visualmente salientes e memoráveis."..."A presença de petroglifos faz as pedras ainda mais salientes, mas rochas não marcadas, por seu tamanho ou arranjo impressionante, podem ser tratadas como dotadas de mesma significância." …”Como explica um homem tariano de Iauaretê, os primeiros seres foram gente de pedra ‘não porque fossem feitos de pedra, mas porque a duração de sua vida é indeterminada.’” (Stephen Hugh-Jones)



Assim, a partir desta análise de Hugh-Jones, observa-se a coerência e a lógica estrutural destes sistemas de linguagem, expressão e comunicação cultural, através dos quais os indivíduos conhecedores daquela simbologia são de fato capazes de criar, de transmitir e de compreender mensagens com significados comuns utilizando símbolos gráficos, desenhos, ilustrações e até mesmo referências geográficas e topológicas. E apesar de distintos dos sistemas de escrita segmental por alfabeto, mas em virtude de fazerem uso complementar dos registros simbólicos em elementos físicos, e não serem portanto de natureza exclusivamente oral, estes sistemas mnemônicos podem representar linguagens ou meios de expressão com eficácia comunicacional intermediária entre as formas de expressão completamente abstratas e os sistemas de transmissão cultural que utilizam a escrita segmental por alfabeto. Além disso, se observados em uma escala “evolutiva” ou “transformativa”, estes sistemas de expressão e comunicação cultural podem ser considerados em uma condição transitiva ou limiar situada entre aquelas formas de organização social que utilizam sistemas exclusivamente orais e aquelas que utilizam a escrita segmental por alfabetos,.



PALAVRA FALADA
E PALAVRA ESCRITA

Em “Desenhos de Escrita” (primeiro capítulo do livro “A Queda do Céu”), alguns relatos produzidos por Davi Kopenawa — xamã de uma comunidade Yanomami relativamente distante (e distinta) daquelas Tucano e Arawak observadas por Hugh-Jones —, revelam os modos também bastante peculiares dos Yanomami lidarem com as “palavras novas”, faladas ou escritas, apresentadas a eles pelos forasteiros “napë” durante uma série de eventos que promoveram encontros interétnicos. E apesar de que na atualidade, em virtude do desenvolvimento de programas de ensino colaborativos entre professores, linguistas e comunidades, alguns indígenas já dominem técnicas de escrita de suas próprias línguas originárias (Sanoma, Yanomami, Ninan e Ajarani), ao enfatizar o distanciamento dos Yanomami com relação aos modos de escrita “napë”, Kopenawa demonstra de maneira bastante clara a tradição, o costume e a familiaridade dos Yanomami com sistemas de linguagem e transmissão cultural distintos da escrita segmental por alfabeto. Além disso, o termo “pele de imagens”, por exemplo, é o modo com que Kopenawa refere-se às páginas de papel dos livros onde aparecem as palavras e desenhos “napë”, quando sugere que o tipo de conhecimento (saber) que se pode extrair das palavras escritas em “peles de imagens” (livros) é diferente do tipo de conhecimento que se pode adquirir através de sonhos xamânicos e das palavras faladas. E ainda, ao comparar a prática “napë” de imprimir palavras em páginas de papel com o costume Yanomami de realizar inscrições na pele humana, Kopenawa evidencia novamente o valor simbólico ou a “substância viva” e transformativa que atribuem ao conteúdo das palavras — mesmo que as tradições originais Yanomami tenham privilegiado o uso das palavras faladas (a oralidade) para a transmissão cultural.

Omama não nos deu nenhum livro mostrando os desenhos das palavras de Teosi, como os dos brancos. Fixou suas palavras dentro de nós. Mas, para que os brancos as possam escutar, é preciso que sejam desenhadas como as suas." (Davi Kopenawa - A Queda do Céu, P. 77)

No relato acima, Kopenawa reitera uma diferença fundamental entre os brancos “napë” e os Yanomami em relação ao uso das palavras e modos de transmissão cultural. Assim, além de explicitarem o estranhamento imediato dos Yanomami com relação à escrita “napë”, as narrações de Kopenawa demonstram que, de fato, as palavras faladas exercem ampla influência nas formas de transmissão da cultura Yanomami, entretanto, práticas rituais caracterizadas por representações simbólicas e inscrições de desenhos na pele revelam que sua cosmologia original e sua dinâmica cultural constituem-se sobre um sistema de memória que, apesar da predominância das manifestações orais, é também baseado em simbolismos visuais, fato que pode caracterizar a existência entre os Yanomami de determinados tipos de estruturas de linguagem, sistemas de expressão e comunicação, fluxos culturais e organização social portanto semelhantes aos encontrados por Hugh-Jones entre os Arawak e os Tucano.

Distinções valorativas entre a palavra escrita e a palavra falada são bastante evidenciadas também no capítulo “O Espírito da Floresta”, de “A Queda do Céu”, onde Davi Kopenawa sugere um contraste bastante nítido entre os potenciais hermenêuticos e informativos destas formas de manifestação. Por exemplo, ao iniciar o capítulo com a frase “Acho que vocês deveriam sonhar a terra, pois ela tem coração e respira.”, Kopenawa reitera diferenças ontológicas entre os forasteiros “napë” e os Yanomami, e propõe que, na ontolologia Yanomami, as percepções imediatas da realidade podem ser traduzidas com maior autenticidade através de palavras faladas do que através de palavras escritas. E apesar de que a condição xamânica de Kopenawa possa ter influenciado o tom de aconselhamento explícito em seu discurso, este modo narrativo revela o que pode ser considerado um aspecto essencial constitutivo de quase a totalidade do seu texto no livro “A Queda do Céu”, interpretado enquanto uma espécie de “diálogo cerimonial” entre Yanomamis e os brancos “napë" — algo que enfatiza outra importante característica distintiva dos modos de apropriação das palavras escritas pelos Yanomami.

Além de propor também uma diferenciação entre as noções de “contato” e “contágio” cultural, e observar os graus e os modos de influência cultural e de transformação social que podem derivar destes diferentes níveis de proximidade e de intercâmbio cultural, Kopenawa sugere ainda que outra importante diferença entre a palavra escrita e a palavra falada é o fato de que a facilidade de deslocamento contextual da palavra escrita (a diferença entre a origem autêntica e o destino ou finalidade última do discurso) amplia sua capacidade metafórica de forjar ou de atribuir significados e valores culturais às coisas, e assim, revela o potencial instrumental das palavras escritas para subverter o valor real dos elementos da natureza e convertê-los em mercadoria. Esta diferença expõe uma importante questão ética e ontológica da qual derivam conflitos cosmopolíticos acerca das formas de apropriação e dominação da natureza, e evidencia que as relações implícitas entre a cosmologia, a linguagem e a cultura de uma sociedade, influenciam nos modos coletivos e individuais de compreensão e de constituição da própria história, portanto, nas dinâmicas de transformação social, conforme analisaremos no capítulo seguinte.

 

TRANSFORMAÇÃO SOCIAL


Assim, outro aspecto importante de considerar acerca das linguagens ou formas de expressão comuns entre os Yanomami, os Arawak, e os Tucano, é o modo com que estão associadas à suas maneiras de compreender e de conceber a realidade, portanto, de desenvolver sua própria história e promover as transformações sociais. Deste modo, quando as informações e o conteúdo mitológico formativo de sua cultura e cosmologia são transmitidos de geração em geração de forma relativamente inalterada, essencialmente através de narrativas orais em rituais periódicos, e reiteradas por meio de encontros casuais ou de expressões eventuais em um sistema fragmentado, descontínuo ou não-linear de simbolismos visuais, a tendência é de que sua história seja também compreendida de forma correspondente. De fato, em “A Queda do Céu”, Kopenawa demonstra que, ao privilegiarem as narrativas orais e a “memória inscrita na própria pessoa” para a transmissão de suas principais culturas e tradições, os Yanomami estruturam sua organização e sua dinâmica de transformação social em torno de um sistema histórico baseado na percepção de tempos cosmológicos essencialmente distintos, porém acessíveis através de sonhos e de rituais xamânicos.

Portanto, se a partir destas noções analisadas anteriormente é possível vislumbrar as maneiras com que a cultura e a linguagem relacionam-se e podem influenciar de forma mútua na concepção de temporalidade, de história, e nos processos de transformação social, outra referência teórica acerca das dinâmicas de constituição e de evolução das linguagens humanas pode ser bastante elucidativa tanto para uma análise mais específica e aprofundada das maneiras com que as relações entre linguagem e cultura podem interferir nas transformações sociais, quanto para o entendimento das dinâmicas transformativas inerentes às próprias linguagens: Em “Perceptions of Environment”, o antropólogo inglês Tim Ingold refere-se ao conceito de “bricolagem cultural”, de Claude Lévi-Strauss, para aludir ao modo com que os primeiros esquemas de configuração das linguagens escritas teriam sido elaborados pelos humanos. Ao pressupor que toda nova invenção cultural baseia-se ou relaciona-se necessariamente com elementos culturais preexistentes, Ingold sugere que as primeiras linguagens escritas foram também inventadas a partir da escolha inicial de imagens ou diagramas concebidos em um momento anterior e que representavam, de maneira homofônica, os sons também anteriormente atribuídos a algo, em um sistema de constituição baseado no princípio de Rebus, a partir do qual, ilustrações ou pictogramas podem equivaler a sílabas ou palavras. Porém, apesar de que alguns historiadores atribuem a origem dos modernos “sistemas de escrita” a um complexo processo cumulativo de elaboração e organização de conjuntos homofônicos, Ingold sugere que as primeiras linguagens escritas podem ser provenientes de estruturas mais simples, semelhantes a uma mistura rudimentar de elementos mnemônicos dos quais os intérpretes familiarizados com tal simbologia seriam capazes de extrair dela os seus significados. Estas, que seriam as primeiras estruturas de linguagem escrita, relembram de alguma maneira algumas características básicas dos sistemas de memória e transmissão cultural observados por Hugh-Jones entre os Arawak e os Tucano, e também configuram o que seria um estágio limiar ou de transição entre sistemas mnemônicos mais simples e os complexos sistemas de escrita contemporâneos.

Deste modo, ao compreender que as transformações culturais e de linguagem relacionam-se com as transformações sociais, e que entre as sociedades Tucano, Arawak e Yanomami, as formas de linguagem e de expressão cultural podem ter influência direta sobre seus modos de compreensão da realidade, de concepção e interação com sua própria história, é possível pensar que, também em outros grupos e sociedades humanas, os aspectos sistêmicos e estruturais fundamentais da constituição, da compreensão e do uso de suas linguagens, também tenham relações com suas formas de organização e de transformação social.


 

© 2016 Eduardo Galvani.
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